A Música e o Fim do Mundo
Hersch Basbaum

Disse, um dia, Jonas Cristolatis, famoso filósofo idolatrado por todos os românticos do planeta, que haverá uma música que antecederá ao fim do mundo. No último momento, naquele átimo antes da escuridão total e do vazio absoluto, uma música será escutada. Talvez uma guitarra candente, emitindo o som dolente de harmônica-de-boca do negro americano tocador de blues, será a ultima coisa viva a ser percebida. Uma luz rubra aparecerá repentinamente ante às faces assustadas dos seres humanos que estarão paralisados olhando para um glacial jardim, onde as rosas, os lírios, cravos e margaridas, tudo enfim, já estará morto.

Mas para Avenarius de Roquefort a situação é bem outra. Para ele, não haverá propriamente uma música final, mas sim o final de uma mesma música, um conjunto harmônico de sons que teve um início qualquer e não mais parou, apenas se transformou. Se tudo começou com um som, onomatopaicamente chamado de big-bang, parece razoável que tudo termine do mesmo jeito. A diferença estará na nota. De um inicial dó-maior para um final em sol-menor. Do trovão da primavera do universo que reverberou por bilhões de anos, assumindo diferentes formas ao se espalhar pelo mundo, sempre tivemos o mesmo e único som, entrecortado, variante, ora apressado, ora lento, ora composto, ora simples, mas sempre o mesmo som que há de chegar ao fim. Para J.B. da Silva, o famoso Sinhô, um dos pioneiros da música popular brasileira, Avenarius estaria com a razão, ao dizer que as músicas estão no ar e serão de quem pegar.

Poetou Emily Dickinson: "Alguém dizia que uma palavra morre quando falada. Eu digo que ela nasce exatamente nesse momento".

Em síntese, na verdade todos concordam que o músico chegou primeiro na misteriosa embarcação da vida e, qual o capitão de um navio, será o último a deixá-lo.